Cia de Teatro Gente

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A Companhia

Neste ano a Cia de Teatro Gente está completando uma década de nascimento. São dez anos de busca por uma identidade que seja, ao mesmo tempo una e multe, respeitando e sustentando as muitas diferenças de quem a mantém viva.

Sem que se percebesse, o caráter multireferencial da companhia foi tomando forma e crescendo. Hoje, cada membro que a compõe sabe que ser "gente" é uma forma de se descobrir e descobrir a arte em si.

Nessa busca, a CIA foi montando espetáculos que investigam o corpo vivo do ator, as diversas formas de estar presente em cena, mas que se propõem também a investigar lugares que pertencem a tantas outras questões relacionadas à raça, ao gênero, às origens, às histórias de vida, à espiritualidade, ao social, às individualidades, às relações, à ancestralidade, ao silêncio, ao invisível.

Barrela, espetáculo dirigido por Nathan Marreiro, com texto de Plínio Marcos, saiu abrindo caminhos. Mais tarde veio A mulher vestida de Sol, também dirigida por Nathan, do texto de Suassuna. Depois, Natan mergulhou na pesquisa ousada e corajosa do Devir. E pôs os atores diante do eterno "vir a ser".

Quando o Devir parecia estar parando, silenciando e, talvez, morrendo(?), em um terreno adubado e preparado floresceu Amêsa, texto do autor angolano José Mena Abrantes.

O que dizer das coisas que não morrem mesmo quando parecem morrer?

Ruben Alves, em um dos seus livros, escreveu: "gosto de ver os casulos de borboletas, lagartas feias que adormecem, esperando a mágica metamorfose. De fora olhamos e tudo parece imóvel e morto. Lá dentro, entretanto, longe dos olhos e invisível, a vida amadurece vagarosamente."

"Amadurece vagarosamente"... Assim acontece... Assim aconteceu...

O Devir silenciou e mudou de forma.

No outro lado do mar... é também fruto dessa pesquisa, desta busca, desse invisível. Quando iniciamos o processo, mergulhamos fundo no "oceano noturno" da arte, do texto e seus personagens, de nós mesmos. Muito surgiu desse mergulho no escuro. Momentos de encontro e de desencontro, que se equiparam à situação na qual estão o Homem e a Mulher, personagens do espetáculo. Dois seres que se entregam à busca da consciência maior do que é estar vivo ou morto.

O texto é também de José Mena Abrantes. E o espetáculo é fruto de um processo experiencial que tem o resultado do jogo criativo do ator – nascido de sua presença viva e de suas multi-referências, em relação com o texto e somado à presença implicada de todas as pessoas que acompanharam o processo – a base da encenação.

Para onde a Cia está caminhando hoje, aos dez aninhos, com essa pesquisa e mais esse espetáculo cheio de nascimentos e mortes? "Não sei. Sinceramente, não sei." Mas penso que chegaremos a algum lugar... quem sabe... No outro lado do mar...

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